O pequeno paese salentino de Diso fica a pouco menos de cinqüenta quilômetros de Lecce. Seu nome, de origem messâpica, significa “cidade fortificada” e os registros históricos remontam seu surgimento ao ano mil d.C. Apesar de não estar em nosso roteiro de viagem, falar de Diso é falar das tradições da Puglia.
Tive o prazer de conhecer Diso em um primeiro de maio, dia dos santos padroeiros São Filippo e San Giacomo. O paesino estava preparado para a comemoração com as ruas tomadas pelos desenhos rebuscados de luzes encantadoras.
Na Puglia, a decoração das festas é levada muito a sério, com direito a competição entre cidades. À noite, as pequenas luzinhas tornam-se grandiosas e monopolizam os olhares. Deve ser por isso que a procissão principal acontece durante o dia.
O coreto da praça principal também mereceu um banho de luz. Uma placa anunciava o repertório da banda para aquela noite: La Traviata, de Verdi.
Nas barracas de doces, podia-se comprar a colpeta, uma barra de amêndoas e açúcar típica da região. Quase um “pé de moleque” feito com amêndoas. Outra iguaria encontrada ali é o alcaçuz, liquirizia em italiano, em natura ou com açúcar. Apesar de não ser unanimidade, o docinho preto é aromático e tem sabor marcante.
Na noite do dia 30 de abril, a cidade já estava pronta para a festa. Em um bar encontramos a família responsável pela iluminação. O senhor mais velho nos contou sobre a migração de seu irmão para São Paulo.
No dia seguinte, San Filippo e San Giacomo saem em cortejo acompanhados pela Madonna dell’Uragano, também padroeira da cidade, festejada em setembro.
Em tradução livre, Madonna dell”Uragano é Nossa Senhora do Furacão. Conta-se que em 10 de setembro de 1832 um furacão chegou à cidade, mas a proteção da Madonna impediu que Diso fosse destruída. A imagem da Madonna, que fica exposta somente no período das festas dos santos padroeiros e em setembro, traz um redemoinho sob os pés.
Enquanto as imagens dos santos estão em procissão, muitos se aproximam e deixam notas de dinheiro nas bases e em fitas amarradas às imagens.
Ao final do trajeto, ainda à luz do dia, acontece o festival de fogos de artifício. Subimos no telhado de uma casa e esperamos os fogos, enquanto abríamos amêndoas com as mãos.
Amêndoas, pistaches e toda uma variedade de frutas secas estão á disposição nas barracas da festa, a preços módicos. Me realizei com um saquinho de pistache só para mim!
Após a procissão, tivemos direito a uma parada para beber café com leite de amêndoas e gelo, uma tradição. O leite de amêndoas caseiro faz toda a diferença. Quem não quiser se contentar com a essência importada, pode se aventurar a fazer o latte di mandorla em casa.
Muitas barracas vendiam instrumentos musicais relacionados à pizzica, música e dança tradicionais da Puglia. O Tamburello reinava absoluto, mas o que nos chamou a atenção foram aquelas pequenas peças de madeira. Como pequenas castanholas, as naccheri são usadas na pizzica e na tamorra. Com a ajuda de nosso anfitrião salentino, conseguimos um desconto e compramos duas.
Aliás, a pizzica merece um post – ou vários! – só para ela. À noite, avistamos um ator do filme Pizzicata e assistimos à apresentação de um grupo tradicional. Ninguém consegue ficar parado ao ritmo do tamburello.
Scirocco, favas frescas e erva-doce
Scirocco é um vento que vem da África e que nossa querida anfitriã Anunziatina nos ensinou a reconhecer: basta olhar para o açucareiro, se o açúcar estiver “empedrado”, sinal de que há scirocco a caminho.
Foi Anunziatina quem nos serviu um “panino semplice” logo que chegamos à Diso. Uma deliciosa ciabatta recheada com mussarela de búfala e speck. E pensar que a pobrezinha ficou se desculpado por nos servir “só um lanchinho” !
Logo depois, fomos explorar o quintal da casa, onde colhemos e comemos favas frescas e ervilhas. Não sabíamos que as favas iriam se transformar em nosso maravilhoso almoço no dia seguinte, acompanhadas de camarão e stroza pretti, um formato de massa típico.
No dia seguinte, fomos apresentadas à frisella. Nos serviram frisa bagnata (molhada na água e sal), com tomate, lampascione (uma cebolinha amarga típica da Puglia), azeitonas e orégano. Um patrimônio local.
À noite, depois de comer pistache à vontade, fomos levadas por Angelo Litti a conhecer e sentir o cheiro da erva-doce selvagem.
Era noite de lua cheia. Podia-se ver tudo com clareza, mesmo sem luz alguma por perto. Conhecemos a árvore quase milenar “quercea vallonea” e terminamos à noite em uma cidade próxima, Tricase, fazendo aula de cerâmica na Bottega Branca.
Boas lembranças de Diso.
Débora Donadel
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