terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Economia criativa


Integrante do grupo Ariacorte,Giacomo Corvaglia tocando tanburello em apresentação em São Paulo na Mostra Sesc Mediterrâneo e no teatro TUCA em 2005 através do Projeto Santu Paulu.



Buscando a raiz da palavra cultura a encontramos há 2mil anos atrás para designar o cultivo da terra: plantar, cuidar da plantação, colher, ensinar aos mais jovens os modos de compreender a vida na terra e seus ciclos são seus atributos. É proveniente da palavra latina “cole” que significava não só cultivar, mas cultuar os deuses e que possui a mesma raiz da nossa palavra colo: algo circular, que tudo pode englobar e que nos toca os sentimentos por meio de ações físicas concretas. Criar uma fina conexão com a criatividade já  continha em si a idéia de subsistência, sobrevivência, economia.



Há 2mil anos já se encontravam campos cultivados na região do mediterrâneo.

Estar na Puglia e olhar para campos seculares de cultivo de oliveiras é ser tocado pela ação da cultura em seu sentido mais antigo. Lá, dizem que os cereais eram coletados em cestos circulares que também serviam para a percussão. Era o “tamburello”, um tipo de pandeirão. Embalava os rituais de fertilidade e tocá-lo era especialização feminina, uma vez que as mulheres sabiam do ritmo por já vivê-lo de forma mais profunda em seu próprio corpo.

Tocado no compasso do coração tornou-se o instrumento musical principal da modalidade pugliese chamada “pizzica” que por sua vez, provém de um uso ritual para cura do “tarantismo”, fenômeno possível de ser observado pelo antropólogo Ernesto Di Martino ainda no fim dos anos 50. O ritual é a sua musicalidade tem origem grega e era dedicado a Dionísio ou Baco, suas oficiantes e musicistas eram as bacantes.



Há pouco mais de 15 anos esta tradição musical foi reevocada na Puglia e fez emergir uma capacidade criativa enorme fundada na mais genuína tradição popular. Munidos de tecnologia para captação audiovisual grupos sairam em campo e coletaram canções, depoimentos, revisitaram De Martino, se reapropriaram de suas origens e desenharam novas feições para sua antiga cultura. Festivais musicais como “La notte della tarantulla”, a criação da ópera “Craj - Domani” por Tereza de Sio e do filme “Craj - Domani” por David Marengo, produções cinematográficas como “Pizzicata”, “Sangue vivo”, “Miracolo”  de Edoardo Winspeare,  revalorização local e consequentemente turística são apenas alguns ítens que se podem se enumerar como consequência desse processo. Saber o saber foi a palavra de ordem; criação, a metodologia. Devolver para a produção cultural o sentido econômico foi apenas o resultado.



Com ritmo marcante e pouco melódica, a “pizzica” é essencialmente percussão. Seu compasso lembra a batida do coração e nos transporta aos confins da memória, à raiz do presente. Sua escuta atenta nos faz fluir, dançar e, paradoxalmente, mergulhar num mar de esquecimento.

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